Blima Bracher

Macarrão, Chianti e xadrez: a intimidade do mestre Emeric Marcier

Emeric Marcier cozinha na casa do amigo Carlos Bracher, em Ouro Preto. Foto de Carlos Bracher

Marcier e seu irmão  gêmeo,   André, fariam esta semanax104 anos. SIsudo como bom romeno que era,  Emeric Marcier era de poucas palavras, raramente abria seu sorriso em acentuado tom de amarelo e tinha na pintura seu prazer supremo.

Fugido da guerra em 1940, se naturalizou brasileiro e escolheu as cidades históricas das Minas Gerais para produzir sua belíssima obra sacra, influenciado pelas figuras distorcidas do barroco. Como diz papai era o mestre maior da pintura sacra.  Insuperável em seus dramáticos vermelhos e negros. Nas figuras retilíneas e no rascante do sofrimento que santifica.

Tive o privilégio de conviver na infância com aquele ser um “quê” vampiresco, que passou 19 temporadas em Ouro Preto, hospedado no Atelier das Lajes, de meu pai, Carlos Bracher, à época um jovem artista já com todo o amor que lhe derrama da alma, mas com seus olhos juvenis, ainda cobertos de esperança.

O atelier de papai , localizado à rua Conselheiro Quintiliano 340,  também já foi endereço de outros ilustres artistas como Ivan Marquetti, Sérgio Telles, Jaime Aguiar, Carlos Augusto Mendonça, Affonso Romano de Sant ‘Anna, Marina Colasanti e Ferreia Gullar. Mas foi Marcier o morador mais assíduo. Lá, com a bela vista da varanda que lhe deflorava a Praça Tiradentes e seus palácios, vivia ele sozinho. Saía com o cavalete para pintar, munido da boina e avental, bem à moda parisiense. Escolher o ângulo perfeito,  a luz propícia e se entregar à pintura: isso lhe dava grande alegria.

Mas tinha o belo homem, com ar já envelhecido, com sua barba branca e boina preta, outros prazeres. Tenho pra mim que sentia falta de ares caseiros e de família (já que se conta que, vez ou outra,  largava  mulher e filhos em Barbacena com a desculpa de ir comprar cigarros).

Fato é que adorava vir a nossa casa. Na época, eu e Larissa éramos crianças e achávamos aquele Papai Noel pouco dado a conversas. Mas se ria com minha irmã, ainda bem pequena. Sentia o aconchego da casa, meus pais jovens artistas, que já haviam morado em Paris e em Monssaraz (Portugal). Fato foi que  Marcier teve com o jovem Bracher uma afeição imediata e identificação artística profunda.

Jogavam xadrez a tarde inteira nos dia chuvosos, pouco propícios à pintura ao ar livre.  Papai conseguiu a proeza de ganhar dele uma única vez.  Marcier ficou bravo, mas gostava que o rival oferecesse ao jogo cada vez mais e mais dificuldades. Entre uma peça e outra falavam de pintura, uma paixão fulminante naquelas duas almas.

Quando a noite caía, ia ele para a cozinha. Não sem antes pedir a minha mãe, Fani Bracher, que providenciasse os ingredientes de seu macarrão. Então ficávamos todos na pequena cozinha com bela vista para Ouro Preto. Ele se rindo de Larissa, pedia um vinho tinto, um Chianti, que amava. Colocava um avental e ia manusear panelas. Cozinhava o macarrão com uma pitada de sal. Num pirex de vidro, despejava boa quantidade de azeite e ali dispunha a massa ainda quente, com ervilhas (dessas de lata mesmo) e presunto cortado em cubos. Jogava por cima creme de leite, misturava tudo e cobria com queijo ralado. A iguaria ia pro forno gratinar.

E nos deliciávamos todos com aquele macarrão nada refinado, porém feito pelas mãos do grande artista, o Marcier. Tenho pra mim que esta era sua receita predileta, pois em 19 temporadas ouro-pretanas nunca variou o cardápio. Ou talvez a única que soubesse fazer…

Morreu em 1990  em Paris e foi sepultado na Boa Morte, em Barbacena. Foram juntos ao enterro papai, mamãe e Ângelo Oswaldo de Araújo Santos.  Quinze dias depois de sua morte, papai conseguiu junto ao saudoso Geraldo Magalhães, então Diretor do Museu da Pampulha, fazer uma bela exposição, incluindo entre as obras a famosa Via Sacra da coleção de Ângela Gutierrez e outros tesouros garimpados junto a colecionadores. Naquela época a burocracia era menor e feitos como este, o de se realizar em tempo recorde uma exposição ainda aconteciam. 

 

dsc_5678
Carlos Bracher e o Secretário de Estado da Cultura, Ângelo Oswaldo
dsc_5675

 

Carlos Bracher, Gogóia Bittar, Adriana Brandão e ester Duarte
dsc_5682

 

Matias Marcier, filho do artista e a esposa Hortênsia
dsc_5732

 

A súiça Sophie,, Augusto Nunes Filho, Bracher e Isabel Richter , pesquisadora aelmã sobre a obra de marcier
dsc_5711

 

Bracher e Ana Catarina Marcier, filha de Emeric Marcier
20161124_201440

 

Blima Bracher
dsc_5724

 

Jesus no Jardim das Oliveiras
dsc_5725

 

Jesus e Pôncio Pilatus
dsc_5726

 

Flagelo
dsc_5729

 

Sepultamento
dsc_5730

 

Via Sacra
dsc_5731

 

Pietá
dsc_5683

 

Retrato da esposa
dsc_5684

 

Retrato de Matias Marcier
20161124_201626

 

Blima Bracher em frente à Pietá
dsc_5716

 

Prometus, Pietá de Motparnasse e São Sebastião

Relembro aqui algumas lembranças da exposição que marcou seu centenário, com curadoria de Edson Brandão , no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, MG.

Tenho dele uma lembrança infantil, misto de cutiosidade, medo, carinho e amor. Como adulta, me deparo com o grande pintor que foi. O gênio romeno perdido em terras tupiniquins, que trouxe consigo o imaginario belico de tempos dificeis. E pintou os sacros como ninguém.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Categorias:
Crônicas

Comentários