Blima Bracher

No meu batuque, se não entro eu, tu não vai entrar

Espaço dedicado à Cultura Negra em Ouro Preto é reformado e ampliado

Poesia, por Blima Bracher

Ouro Preto de pulsos negros e batuques pretos

Se me vem à casa te ofereço o peito, da galinha gorda do quintal varrido.

E te benzo em óleos e unguentos tantos.

Se da antiga Vila me feriram pés

Hoje do Ouro Preto, sou o preto rei.

Coroa tenho

Se me deu o Pai, a carapaça forte do Leão de Judá

Teço negras cordas em meus carrapichos

E em ventos faço os mais belos desenhos

Em meu caminhar cabe muita ginga

Ou canelas finas de vovô Xará.

Sou Dodô de Elzinha, neto de Dadá.

Filho de Oxalá, espalho em meu terreiro pernas de dançar

Sou da dança o curso, pois que no batuque, se não entro eu, tu não vai entrar

Sou do Carnaval

Tambores ancestrais

Encho de alegria

Teus poros suados

Sou da capoeira, do jogo e do jongo

Sou dos santos mãe

E anjos encarnados

De Aleijadinho, em gulosos olhos a fingir recato.

Os veios lavrados

Em morros cavados

Minas de tesouros

São pra mim sussurros

Quero menos ouro e mais bronzeados

Atados em coloridos panos

A descer os morros

Guardiões do tempo

Das alturas pétreas

Em púrpuras rosas

E casebres rotos

Ricos em sorrisos e feijão de touço

O café coado, a cachaça doce.

Mel pousado em moscas nos nossos altares

Do Brasil

O berço dos Congados

Pois à Vila Rica veio sequestrado

Galanga do Congo

Meu Rei destronado

Feito escravo

E depois aclamado: Chico Rey

Rei sou, e serei coroado

(Poesia, de Blima Bracher, em 17 de janeiro de 2020, em homenagem à Casa de Cultura Negra de Ouro Preto)

Segue abaixo, comunicado da Prefeitura de Ouro Preto:

“A comunidade ouro-pretana, em especial a afro-brasileira, tem um motivo a mais para comemorar este início de ano. A Prefeitura realizou no sábado, dia 11 de janeiro, a entrega da obra de reforma e ampliação da Casa de Cultura Negra de Ouro Preto.
O espaço, localizado ao lado da Igreja de Santa Efigênia, propiciará a realização de atividades sociais e educativas, e o fortalecimento da cultura e tradições do município, abrindo oportunidades e valorizando a história do negro na cidade.
A casa passou por reforma e ampliação, ganhando um novo módulo e um anfiteatro na área externa.
Para o prefeito Júlio Pimenta, “a Casa de Cultura representa tudo que há de importante na tradição ouro-pretana. A valorização da arte, da música, das manifestações culturais, enfim, de tudo que é produzido no município”.
Francisco Ferreira Guimarães, conhecido como Mestre Batata, do grupo de Capoeira, endossa as palavras do prefeito. “A reforma e ampliação dessa casa é de muita importância, era o apoio que a gente precisava para realização de nossas atividades, e que nunca tivemos antes”, frisou ele.
Segundo Kedison Guimarães, capitão da Guarda de Moçambique de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, “a reforma e ampliação desse espaço torna cada vez mais expressivos os movimentos de cultura negra na cidade de Ouro Preto.”
A Casa de Cultura Negra de Ouro Preto é importante não só para o bairro Alto da Cruz, onde está inserida, mas para todos os bairros adjacentes, destaca o presidente da Associação de Moradores do Padre Faria, Efigênio Oswaldo de Souza, o Fijas. “Toda comunidade de Ouro Preto é beneficiada, principalmente os bairros Alto da Cruz e Padre Faria. O guardião da Casa é a própria comunidade. Conservando e cuidando todos serão bem atendidos.”
A gestão da Casa será feita pela Diretoria de Promoção da Igualdade Racial e o espaço será ocupado pela Amirei (Associação dos Amigos do Reinado) e pelo Firop (Fórum da Igualdade Racial de Ouro Preto). O local abriga ainda as reuniões da Associação de Moradores do Alto da Cruz (AMAC).

Entrega do certificado de bem imaterial
Durante a solenidade de entrega da Casa de Cultura Negra, a Festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito recebeu o Certificado de Patrimônio Imaterial de Ouro Preto. Realizada em Ouro Preto há mais de 200 anos, tornou-se uma tradição da fé afrodescendente.
“É de suma importância a preservação das manifestações culturais e religiosas da nossa cidade. A força destas manifestações vem da devoção, festa e religiosidade. Herança do nosso passado africano, está enraizada na nossa cultura, mantendo-se viva em Ouro Preto”, ressalta o secretário de Cultura e Patrimônio, Zaqueu Astoni. “Os dossiês foram feitos de forma colaborativa, com participação dos requerentes”, completou o secretário.
Kátia Silvério, presidente da Amirei, fala da importância do momento. “Esse reconhecimento fortifica o reinado, reforça a nossa identidade como negros ouro-pretanos, dá visibilidade à nossa raiz africana dentro de Ouro Preto e traz dignidade para esse povo que construiu esta cidade”.
Com esse reconhecimento, Ouro Preto tem agora seis registros como patrimônio imaterial: ofício das bordadeiras e rendeiras, os doces e a Festa do Divino Espírito Santo de São Bartolomeu, a Cavalhada de Amarantina e a Festa de Nossa Senhora dos Remédios de Santo Antônio do Salto.

Bandeira de reinado forjada a ferro há 200 anos é entregue restaurada
Para valorizar ainda mais a celebração, foi entregue totalmente restaurada uma bandeira de ferro forjada há mais de 200 anos e encontrada recentemente na capela das necessidades no Padre Faria. As imagens pintadas na bandeira são de Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito, todos negros.
Este achado comprova que a tradição do reinado surgiu na antiga Vila Rica há mais de 200 anos. “Por ser feita em ferro fundido e no século XVIII, ela foi feita pelas mãos de quem conhecia o ofício. Naquela época, quem dominava isso eram os africanos de Benin, Gana e Burkina Faso, sequestrados pelos portugueses e trazidos para cá”, disse a historiadora, pesquisadora da cultura africana e diretora de Promoção da Igualdade Racial da Prefeitura de Ouro Preto, Sidnéa dos Santos.
O trabalho de recuperação da bandeira foi coordenado pelo conservador e restaurador Aldo César de Araújo. “Fizemos a reconstituição pictórica de todas as áreas de perda. Fizemos o mínimo de intervenção possível, sem causar falso histórico. Todos elementos reintegrados já existiam na própria bandeira”.
A relíquia não pode ser exposta constantemente ao sol e nem à chuva. Ela terá uma programação especial durante as próximas realizações do Reinado, evento que abre o calendário cultural de Ouro Preto, no mês de janeiro.
Com estas conquistas, Ouro Preto abriu as comemorações dos 40 anos do título de Patrimônio Cultural Mundial da UNESCO, primeiro concedido ao Brasil, em 1980.”

Nas fotos de Ane Souz: A Bandeira restaurada e Kedison Guimarães, Sidneia Santos, Júlio Pimenta, Kátia Silvério, Zaqueu Astoni, Aílton Miranda e Rodrigo Alvarenga dos Passos.

Kedison Guimarães, Sidnéa Santos, Júlio Pimenta, Kátia Silvério, Zaqueu Astoni, Aílton Miranda e Rodrigo Alvarenga dos Passos.
Bandeira restaurada forjada há 200 anos

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.