Blima Bracher

Abandono de cães cresce com a pandemia

Número de cães abandonados e de cortar o coração

Quando podia andar pelas ruas tinha um amor a cada esquina. Alguns me olhavam com jeito pidão de “me leva pra casa”. Outros apenas me olhavam de lado e davam a impressão de sorrir. Saiam altivos, com o peso do mundo nas costas e a malandragem de quem conhece a vida. Outros ainda se esquivavam desconfiados. Olhar de relance, medo do chute. Porque chute na bunda dói. E estes já levaram muitos… Mas agora, é o abandono e a indiferença que matam. O que aconteceu com todos aqueles que passavam e me davam alguma migalha? E me aqueciam por alguns instantes a solidão de vagar sem rumo pelas ruas? Estamos sozinhos, abandonados, com fome e medo. Alguma coisa paira no ar. Mãezinhas procuram abrigos pra dar a luz: ninhadas fracas, o leite seco, a vida só. São frágeis matilhas, colorindo as ruas? São anjos na terra: vagando, vagabundando, ou vagabundeando. Pedaços de mim que se escondem atrás das igrejas, nos terrenos baldios e matagais. Adorávamos festas. Sempre sobrava algum de comer pra nós. Mas as aglomerações acabaram e se esqueceram da gente. Esperar migalhas, um olhar de carinho, um chamado amigo: tudo se foi. Tudo em vão. Almas boas que costumávamos seguir por algumas quadras agora não vem mais. Estamos perdidos pelas ruas novamente. Temos frio, sede e fome de amor. Porque sumiram todos? Não se esqueçam de nós. Não nos abandonem. Não transmitimos Covid-19. Queremos apenas viver com amor. Se puderem deixem água e co.ida pra nós. Sentimos que há algo estranho no ar: ruas vazias… Mas não se esqueçam de nós.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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