Blima Bracher

Um voyeur vingador da história

À esquerda, Sharon Tate, morta em 1969 pelos seguidores de Charles Manson; e, à direita, Margot Robbie que a interpreta em “Era uma vez em… Hollywood” de Quentin Tarantino

Crítica de “Era uma vez em… Hollywood”, Oscar 2020

Um voyeur vingador da história

Tarantino, como lhe permite o poder, enquanto roteirista e diretor, gosta de brincar de Deus, infiltrando seus personagens em passagens históricas e mudando os rumos finais dos acontecimentos, seja pelo simples fato de surpreender o expectador, ou pelo mais heróico propósito de vingar os oprimidos.

Um voyeur vingador da História.

Quem não amou a possibilidade de se frear os absurdos do nazismo, incinerando Hitler e seus generais dentro de uma sala de cinema, no filme “Bastardos Inglórios”?

Em seu atual “Era uma vez em… Hollywood”, foi delicioso ver o bando assassino dos seguidores de Charles Manson sendo surpreendido pelo erro de entrarem não na mansão de Roman Polanski, mas na casa vizinha, onde o ator decadente Rick Dalton (Leonardo DiCaprio, que concorre a “ Melhor Ator”); sua esposa italiana; e seu fiel dublê Cliff Booth (vivivo por Brad Pitt, que concorre a “Melhor Ator Coadjuvante”) recebem os seguidores de Manson com uma pit bull, um incinerador, facas e até latas de comida para cães.

A tragédia anunciada no filme, até pelos detalhes cronológicos e os horários mostrados, que nos deixam na cruel expectativa de vermos o trágico fim da bela Sharon Tate (vivida por Margot Robbie) é reinventada no mais genuíno estilo Tarantino. (Pra quem não sabe, o crime se tornou icônico nos EUA: a atriz e modelo norte-americana, Sharon Tate, casada com o aclamado diretor polonês Roman Polanski foi brutalmente morta aos 9 meses de gravidez pelas mãos dos seguidores da seita macabra de Charles Manson.)

Podem amar ou odiar Tarantino, muito embora os que tentaram reduzi-lo a um diretor clichê de filmes trashs tenham que engolir goela abaixo sua genialidade e o véu de humor e vingança que nos faz amar até as gotas de sangue que respingam da tela.

Em “Era uma vez em.. Hollywood”, a referência a “ Era uma vez no Oeste” não é gratuita. Os filmes de faroeste são colocados como uma indústria em decadência, tanto quanto a era dos ídolos hollywoodianos e seus casacos de pele, minissaias, óculos, plumas e paetês.

Só não se banaliza o ato de fumar. Aliás, se você estiver tentando parar, não assista à película.

Fora isso, o filme é mesmo destinados a voyeurs cinematográficos, que se contentam com longas sequências, que nos incerem nas cenas, dando-nos a possibilidade de estarmos abrindo uma cerveja com Pitt; bebendo uma marguerita com DiCaprio; ou dançando um rock com Margot.

Quem não quer a vida como ela é? E viver em outras peles? Tudo isso com a possibilidade de documentar um crime histórico, mas da janela do vizinho… Tarantino pode… E nós amamos.

À esquerda, a atriz Sharon Tate, morta em 1969 e, à direita a atriz Margot Robbie que a interpreta em “Era uma vez em… Hollywood” de Quentin Tarantino

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.