Blima Bracher

Trótski: quem financiou a Revolução Bolchevique?

Trótski, a série: quem teria financiado a Revolução?

Quase caí da cadeira, quando comecei a assistir à serie Trótski , exibida na Netflix e produzida por uma tv oficial do Kremlin. Leiba Brostein, judeu, era um pacato camponês russo, que vivia com a mulher e as duas filhas no interior da União Soviética, quando decide abandoná-las e parte em busca de ideais revolucionários, na virada do século XX.

A URSS está inflamada, com a incapacidade do Czar Nicolau II em enxergar a revolução popular que acontece debaixo de suas barbas (falemos disso mais tarde, pois depois quero citar uma outra série, complementar a Trótski: Os Últimos Czares).

Em Paris, Leiba discursa em cafés, defendendo o proletariado, porém sua figura deselegante e maltrapilha e seus míseros quinhões não dão nem para meia dúzias de brioches. Não obstante, a oratória do jovem, chama a atenção de burgueses judeus, que estão loucos para derrubar aquela derradeira monarquia e transformar a Rússia num país “moderno”, livre de monarcas e comandado pelos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Leiba é abordado por um abastado senhor judeu, a mando de um outro bilionário judeu, que lhe propõe mudar de nome. Ele escolha Léon Trótski, em homenagem a um general que o prendera por perturbação da ordem pública.

O judeu rico dá uma aula de etiqueta a Léon, dizendo que ele tem que convencer não só com palavras, mas com uma boa imagem e ricas vestimentas.

Léon então aceita um banho de loja e a oferta de morar num prédio de classe média na França, tudo financiado pela burguesia judia. Lá conhce sua segunda esposa, Natasha Sedova, uma modelo de nu, em academias de pintura.

Foi aí que minha cabeça deu um nó? Teria a Revolução Comunista sido financiada por interesses burgueses, para derrubar a monarquia e instaurar novos valores a uma potência mundial e rica como a Rússia, mas ainda ligada a padrões medievais de existência.

Teria sido Trótski, um fantoche criado para insuflar multidões de camponeses e proletários.

Seria minha tão idolatrada Revolução Russa de faculdade, lendo livros e mais livros Marxistas, apenas uma manipulação burguesa e maquiavélica, onde os fins justificariam os meios?

A série recebeu várias críticas por isso. Principalmente na própria Rússia.

Lénin é colocado como um apaziguador almofadinha e Stalin não foge ao padrão de líder autoritário que domina pelo terror.

Deixo aqui um convite para que vejam a série, que aliás foi bastante criticada, ao colocar um Trótski perturbado, que fala sozinho e que se encontra preso em culpas e visões do passado. Também conversa com fantasmas que são suas penas a serem expurgadas em meio a cenas de grande violência, como a que em um trem, o carvão acaba e os camaradas ficam presos na neve. Trótski manda que se deprede um cemitério local para queimar as cruzes e mata toda uma família que vinha enterrar um ente querido, inclusive crianças. Seria a perpetuação do velho discurso de que comunistas comem criancinhas? Não me admira que os russos tenham criticado a série.

Vamos ao outro lado da questão, A Revolução Russa realmente queimou livros, ícones religiosos, preciosos tesouros da cultura russa e matou milhares em massa.

O que mais intriga é a mão burguesa por trás de tudo isso.

Mas, se pensarmos bem, faz todo o sentido. Um paradoxo maquiavélico: o Capitalismo teria financiado o Comunismo?

Aí vem o outro lado da questão: voltemos aos Romanóvs. Em Os Últimos Czares, Nicolau II, mostra-se um líder fraco, incapaz de enxergar as transformações que seu povo exigia, a fome e o medo nas ruas. Trancafiado em palácios e festas, manipulado pelo tio tirano e mais preocupado em dar um herdeiro homem para a Rússia, depois das quatro meninas que teve com a czarina alemã Alexandra Feodorovana, Nicolau II mostra-se preso nesta teia familiar e monárquica, isso no início do século XX, onde as burguesias emergiam e a monarquias estavam em decadência.

Quando, finalmente o czarevich Alexei nasce, descobre-se que o menino é hemofílico, o que aproxima a czarina do guru Rasputin, um líder espiritual, mas que busca no sexo energias sobrenaturais e exercendo sobre a czarina um poder maléfico e limitante. O Czar Nicolau II vira chacota em jornais e panfletos, com o possível envolvimento de sua mulher e Rasputin.

O cerco aos Romanóvs se aperta, até que os bolcheviques, insuflados por líderes construídos ou não, por um proletariado armado (cuja origem deste armamento é outro ponto duvidoso), são exilados numa casa de campo , e lá ficam trancafiados e vigiados, até que a sentença fatal chega e é lida. O primeiro a ser morto é o czar. Alguns membros da família tinham jóias escondidas sob as vestes, o que levou mais tempo para morrerem por armas de fogo. Não obstante a carnificina foi terminada na ponta de baionetas.

Não existindo a menor condição de uma das princesas, como muitas alegaram, ser Anastácia, uma sobrevivente da chacina.

Monarquia derrubada, líderes esclarecidos fazendo a cabeça de camponeses e operários armados e a pergunta que não quer calar: quem financiou tudo isso?

Os Romanóv
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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