Blima Bracher

Pretrus: o chafariz que jorrava amor

Foto Blima Bracher em @ateliecasabracher


A cada esquina que virava em Ouro Preto, dava de cara com Petrus.
Um chafariz de pedra, cabelos armados às laterais, olhos rasgados tal como riscos azuis em pele pálida de pedra-sabão.
Como podia?
Ser pedra e pulsar?
Ser pedra e chorar?
Ser pedra e gerar?
Ser pedra e amar?
De um amor gelado, que de tão frio derretia ferro?
Tinha a verve dos escultores.
A ele até o couro se rendia, tomando formas humanas, ganhando vida circular, em máscaras ensolaradas dando voz a textos múltiplos de gregos, romanos e shakespears
Aqueles olhos cinzas que soltavam faísca em troca de cumplicidade
À fraternidade hippie.
Nascido em Osasco, seu nome prenunciava venturas: Pedro Arcângelo Evangelista.
Como esculpir este nome, já tão perfeito em si?
PETRUS
PETRUS
Sim, PETRUS era de pedra, arcanjos e evangelhos
Bastava assinar a forma bruta
Mas Petrus não era bruto.
E já veio moldado, em amor
Fora feito em carne e sangue.
Talhado em suavidades
Flanava leve como nuvem
Com um dedo se erguia o bloco
Que muitos só suados faziam
Tamanha leveza e eternidade havia naquele rosto.
Sim
Petrus era o modelo.
Viera pronto, como que uma folha solta de um diário de Da Vinci.
Voara leve pelos ares, pelo tempo, pelas galáxias
E baixou Petrus em Ouro Preto,
Achado por energias de Aleijadinho.
Aqui se moldou em barroco, naquele rosto modelo. Era o próprio anos 70, se esgueirando magro, jeans baixo, pálido, com olhos macios de fera mansa.
Me lembro de um cigarro? Talvez um imaginário. Mas as calças dobradas no tornozelo, essas eu acho que vi.
Como virar pros 80 e 90? Muito perfume, que em pedra não entranha.
Anos 70, a cara intacta.
Mas a galáxia requereu seu molde.
A perfeição não era só barroca e aquele rosto precisava inspirar os tempos.
Mais uma vez voou Petrus ao infinito.
De infinita beleza
Pois a perfeição se faz no artista
E o sangue se esgotou nas veias,
Mas se Michelangelo o clamasse à fala
PETRUS responderia:
“Aqui estou , Mestre”, em carne, osso e pedraria.
Pra mim, ele mora nos chafarizes feitos nos anos 70, alguns que meu pai e Felipe Mahé esculpiram, tirando a inércia petrificada, agora vertendo água e amor aos homens de boa vontade.
P.S.: Petrus nasceu em Osasco, nos idos de 1943. Foi dos grandes artistas que se fizeram, nos anos 70 em Ouro Preto. Escultor por formação, estudou formas com Amilcar de Castro ( 1974 a 1978); História da Arte /Estética, com Moacyr Laterza ( 1978 a 1980), na Fundação de Artes de Ouro Preto – FAOP. Em 1987 cursou “Política de Administração Cultural, no Instituto de Filosofias Arte e Cultura ( IFAC), na Universidade Federal de Ouro Preto ( UFOP). Elaborou com Maria Doroteia de Aguiar Barros Naddeio, o projeto “Canela de Ema”, em Belo Horizonte. Tornou-se em respeitado artista , pesquisador, pensador e defensor dos artesãos.
Autor da tese “O pensar de fora e o saber de dentro: a realidade dos artesão brasileiros”, subsídios para a regulamentação da profissão do Artesão.
Publicou:
“O Manifesto do Artesão”, 1975 – Belo Horizonte -MG
“O Direito dos Artesão” – Editado pela gráfica da Secretaria de Cultura de Belo Horizonte- MG
“Preparação para a União dos Artesão”- Editado pela gráfica da Secretaria de Cultura de Belo Horizonte- MG
Participou dos projetos:
“Criança faz Artesanato” 1971 a 1973
“Projeto Feira dos Fazeres” – Ouro Branco, Ouro Preto, , Divinópolis e Timóteo, 1988
Petrus era casado com Zélia, com quem teve três filhos: Petrinhos, pai de Petrus; Elis, que é mãe de João Pedro ; e Janaína Evangelista, mãe de Pedro Gabriel e Hélio. Janaína é concursada, efetiva na FAOP, seguindo os passos artísticos do pai, como Professora de Arte e Restauro.

Para o avô, o neto Pedro escreveu:

“Lugar de vô
É no coração
Da gente
E de todo mundo

Jamais esquecido
Nunca morrido
Estará sempre
Na alma.

Estava sempre
Com calma
Ele era legal
Brincante e tal

Do meu vô
Nunca esquecerei
Porque dele gostei
E, sem ele agora,
Visitarei onde ele mora”
21/11/2006

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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