Blima Bracher

O primeiro beijo

O primeiro beijo

Ela a beijou como a extensão de sua própria carne: tenra, macia, suave, sem pelos e sem oferecer opostos e antagonismos hormonais. Beijou-a como a dissecar delgadas camadas no espelho. Descobriu que o beijo não precisa ter paixão e guardar súplicas, nem tampouco ser amor e guardar o tempo. O beijo pode ser efêmero, egocêntrico e excêntrico. Sim, ficou a expectativa de um afeto mágico, sublimado em cantinhos da mente. Portais etéreos, não héteros. E pensava se pensavas nela. Um suspiro breve. Apenas crianças, em palmas e cirandas. Não obstante, foi o pequeno óculo de sua boca e o encaixe da respiração o elo mais verdadeiro, surpreendente e inocente. Logo ela, tão afeita a bigodes e trapézios. Gostou das mãos longas, meio masculinas, mas com a ancestralidade nordestina de bordadeiras e saias rodadas. Teu ar, inodoro e fresco como deve ser um beijo. Talvez reminiscências dos primeiros beijos adolescentes, porém mais afoitos. Não tão serenos como sua boca. Selaram o feminino de suas almas. Sem tensão,ou tesão. Apenas um encontro forte de alhures sotaques. Por que foste em minh’alma outro amanhecer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Crônicas