Blima Bracher

Memórias e lendas Ouro Preto

Sinhá Olímpia em foto de Dimas Guedes

Vejo o tempo passar à medida em que meus passos ladeira acima tornam-se mais lentos.

Mesmo assim, saio pelas ruas de Ouro Preto em busca de um tema.

Na Ponte dos Contos, alguns hippies vendem artesanato. Imediatamente estou nos anos 70, seguindo minha mãe pela feira de São Francisco, onde hippies com sotaques carregados vendiam batas bordadas com espelhos. Foi ali também que conheci o Profeta Gentileza, que, por coincidência ou não, deu as caras no meu face, no mesmo dia em que procurava inspiração pra escrever.

Voltar a morar em Ouro Preto tem sido um exercício penoso. Minha memória daqui é de uma infância nem tão remota. A sorveteria da praça ainda é pra mim a loja do Murilo Castanheira. Em algum lugar no Pilar, ainda existe a loja do Sr. Kassis, pai de meu amigo Jorge, que agora tem filhas lindas.

Como era bom tomar sorvete no Krispim. E ver a banda passar aos domingos.

O cheiro das tropas era quase que diário pelas ruas. Fezes de mulas misturadas ao nevoeiro sombrio das manhãs.

João Pé de Rodo ainda se arrastava pelos becos. De Sinhá Olímpia não me lembro. Mas Bené da Flauta costumava me pegar no colo e, segundo minha mãe, me chamava de Menino Jesus.

Valdir ainda está por aí e se metamorfoseou em seu apelido: vive flanando, como um saquinho de leite, ao som de um radinho.

Me lembro das unhas vermelhas de Gigi, que alugava a garagem pra nós, no casarão da esquina. Estava sempre na janela com Plínio e sabia de cor todas as desgraças da cidade. Pedia ao papai para subir no porta-malas e entrava assim, no alto, naquela garagem cheirando a mofo.

Mais embaixo moravam a irmãs Caldeiras. Tristes e frias coitadas, embrulhadas em seus casacos pretos. A alegria invadia a casa quando as cinco Marias vinham visitar as avós. Mariana se foi, mas serão sempre cinco as Marias Caldeiras.

O Pouso, misteriosamente, Tia Lilli deixou como herança pro Ricardo, que veio a ser meu marido. A casa linda e mística, que eu visitava sempre. Prova de que os mortos olham por nós.

Ia pro Educandário Santo Antônio me deleitar com a querida irmã Nice. Ao piano, ela abria o sorriso farto de dentes amarelos e mostrava a faceirice por baixo do hábito. Lá também estavam Geralda e a amada irmã Fidelis. Passo pela casa fechada para obras. Obras eternas, que machucam minha alma. Ainda escuto ali a algazarra dos pequenos em recreio.

Toda semana me deparava com um caminhão parado em frente de casa. Era o Dindinho Nelson Queirós, que com sua generosidade imensa abastecia nossa despensa. Homem bom, padrinho da minha irmã. Vinha aplicar injeção na gente e fazia questão de que mamãe tampasse nosso rosto para não associarmos a ele a breve dor das agulhadas.

Aqui ao lado vivia Vovó Elisa. Ficou viúva cedo e já a conheci de preto, com os cabelos brancos envolvidos numa rede. Nos olhava pela janela. Quando via que eu e Sissi brincávamos de aniversário de bonecas, mandava de presente um bolinho pequeno, todo confeitado.

Sissi eu vi pela primeira vez no colo de Dôra. Minha primeira amiga. Passei a frenquentar a casa de Tia Zelinha Coppoli. E convivia com as travessuras masculinas de Gim e a beleza adolescente de Cláudia, carinhosamente chamada de Tazinha.

A casa mais linda da cidade era a de Domitila, onde eu engatinhava no chão frio de pedra. Rafael Tobias, seu filho, foi criado aqui. Mas as asas deltas cariocas o levaram pra longe.

No cemitério de São Francisco está Guignard, de quem tenho uma saudade imaginária. Ao lado está Ivan Maquetti, de quem me lembro de mãos dadas com um anjo loiro de cabelos cacheados e bochechas vermelhas.

E termino o passeio no Adro da Igreja do Carmo, onde dei meus primeiros passos. Naquela época tinha medo de seguir pelo lado direito. Mas hoje, gosto de olhar o silêncio dos mortos do Carmo. Lá está Ouro Preto transformada em pedra.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.