Crônicas

Crônica, por Blima Bracher; Ney Cocada e o incêndio em Ouro Preto

Corria o dia 8 de abril de 1979 em Ouro Preto. As labaredas lambiam uma mercearia na Rua São José, no Centro Histórico. O fogo que não anda, mas pula…, logo logo se alastrou para o casarão vizinho. O Corpo de Bombeiros foi acionado e o Tenente Antônio Balbino lutava com sua equipe para controlar as chamas. A TV Globo registrava tudo com depoimentos do então prefeito,Alberto Caram e do então secretário de Cultura , Angelo Oswaldo. Eu era bem novinha, mas ouvi esta história ser contada algumas vezes na casa da Ladeira do Carmo 56, onde moram meus pais. O pintor Ney Cocada chegou com uma tela gigante e pediu aos bombeiros para registrar a cena. Como à época os meios de registro eram precários, os bombeiros acharam por bem atender ao pedido do artista.
O quadro seria um registro a mais do sinistro. Colocaram o pintor num ponto privilegiado, devidamente isolado das chamas. Ney Cocada pintou, pintou e pintou com sua barba enorme e cabeça calva a cena terrível que deixou chocados os ouro-pretanos. Qual não foi a surpresa de todos ao final de concluída a obra. O artista a virou e apresentou ao público: tratava-se de um belo dia na Praia de Copacabana com moças a tomar sol e mar sereno. Genial. Como a alma de um genuíno artista: se absteve do entorno e pintou uma sensação imaginária. Uma situação de seu rico perfil criativo e excêntrico, deixando seu depoimento, extremamente, peculiar sobre o que vira naquele dia. Digo isso com um carinho enorme pelos artistas que sempre amaram Ouro Preto, inclusive meus pais. Aliás, Ney Cocada gostava muito do colega Carlos Bracher e o presenteou com uma outra enorme tela que fizera: a cena, desta vez era a Praça Tiradentes. E onde havia carros estacionados, Ney Cocada enxergou e pintou carneirinhos dormindo tranquilamente. É desta matéria fluida, sensível, crítica e única que é feita a Arte. P.S.: Depois de assistir a um vídeo do Globo Repórter postado por @analfabetasdaufop . @blimabracher foi indicada como uma das dez melhores cronistas do Brasil pelo @premiojabuti em 2022 e Prêmio @sescbrasil de Literatura Crônicas Rubem Braga, com o Livro “Estrábica”
https://www.instagram.com/reel/DP9pPzfDwjQ/?igsh=MXdkNjRna3ozYW1meA== Com

Blima Bracher

Blima Bracher é jornalista, formada pela UFMG e Engenheira Civil. Trabalhou doze anos em TV como repórter e apresentadora na Globo e Band Minas. Foi Editora da Revista Encontro e Encontro Gastrô. Escritora, cineasta e cronista premiada.

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