Blima Bracher

Crônica: Homenagem aos 133 anos da Abolição

133 anos da Abolição da Escravatura

No meu batuque, se não entro eu, tu não vai entrar, por Blima Bracher

Ouro Preto de pulsos negros e batuques pretos

Se me vem à casa te ofereço o peito, da galinha gorda do quintal varrido.

E te benzo em óleos e unguentos tantos.

Se da antiga Vila me feriram pés

Hoje do Ouro Preto, sou o preto rei.

Coroa tenho

Se me deu o Pai, a carapaça forte do Leão de Judá

Teço negras cordas em meus carrapichos

E em ventos faço os mais belos desenhos

Em meu caminhar cabe muita ginga

Ou canelas finas de vovô Xará.

Sou Dodô de Elzinha, neto de Dadá.

Filho de Oxalá, espalho em meu terreiro pernas de dançar

Sou da dança o curso, pois que no batuque, se não entro eu, tu não vai entrar

Sou do Carnaval

Tambores ancestrais

Encho de alegria

Teus poros suados

Sou da capoeira, do jogo e do jongo

Sou dos santos mãe

E anjos encarnados

De Aleijadinho, em gulosos olhos a fingir recato.

Os veios lavrados

Em morros cavados

Minas de tesouros

São pra mim sussurros

Quero menos ouro e mais bronzeados

Atados em coloridos panos

A descer os morros

Guardiões do tempo

Das alturas pétreas

Em púrpuras rosas

E casebres rotos

Ricos em sorrisos e feijão de touço

O café coado, a cachaça doce.

Mel pousado em moscas nos nossos altaresContinua depois da publicidade

Do Brasil

O berço dos Congados

Pois à Vila Rica veio sequestrado

Galanga do Congo

Meu Rei destronado

Feito escravo

E depois aclamado: Chico Rey

Rei sou, e serei coroado

(Poesia, de Blima Bracher, em 17 de janeiro de 2020, em homenagem à Casa de Cultura Negra de Ouro Preto)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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