Crônicas

Almodóvar sendo Almodóvar: Oscar 2020

“Dor e Glória”, de Almodóvar, concorre a estatuetas no Oscar 2020

O título infame deste texto esconde algo tão literal quanto abstrato: seria Salvador Mallo (Antônio Banderas, concorrente ao Oscar de Melhor Ator), o alter-ego de Pedro Almodóvar? Apesar das sucessivas negativas do autor, o personagem de um cineasta homossexual, com madeixas compridas insiste em dizer que sim. Almodóvar blefa sempre, e esta é uma das delícias de amar Almodóvar.

Fato é que “Dor e Glória” ou como prefiro, “Dolor y Gloria” (que concorre ao Oscar na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira) é como abrir aqueles álbuns de infância, com lugares perdidos na memória, poeiras de amores platônicos, sorvetes pingados nas roupas e primos com shorts amarelos.

Sorvo Almodóvar desde criança.

Comecei me aplicando com “Ata-me”. Desavisados, entramos no Instituto Moreira Salles com papai, que ruborescido, nos puxou porta afora diante de um nude de Banderas. Àquela época a infância ainda nos rondava e amigas eram melhor companhia para tais películas.

Então, tratei de ver o filme depois, encantada com o enlevo agridoce de Victoria Abril e do estreante Antônio. Aquele amor como caramelo atado na ponta de uma corda, ora oferecido, ora puxado fez de mim, das meninas e de metade dos meninos de minha geração fãs apaixonados pelo espanhol.

Confesso que a captura Hollywoodiana do ator me decepcionou. Detestei aquela peruca em “Entrevista com o Vampiro” (embora minha paixão por Tom Cruise, tenha saído intacta e meu gosto pelo filme também). Igualmente detestei Banderas em “ A Máscara de Zorro”.

Acho que espanhóis tentando ser sensuais viram pleonasmos.

Talvez, por isso, tenha reatado minha antiga paixão de “Ata-me” em “Dor e Glória”. Um Banderas totalmente natural e decadente como pede o drogado Salvador Mallo. Perplexo diante da vida passada, mas com alguma faísca heroica e caliente apontada para um futuro que julgamos ser de glória.

A homossexualidade, em febre, desenhada desde a infância; os cenários molhados ou áridos; as cavernas reais e obscuras do desejo mundano muito embora abrigadas no acalento da casa materna.

O colorido das obras do apartamento na fase adulta; as calças apertadas de couro surrado; um filme chamado “Sabor”…nada mais Almadovariano.

Seria piegas citar Penélope Cruz? Existiria algo mais latino que seus cabelos presos em coques despenteados? Doces lugares comuns que amamos tanto quanto pinguins em geladeiras.

Nada mais surreal que o óbvio…

E nem precisei comer pipocas pra amar “Dolor y Gloria”

Blima Bracher

Blima Bracher é jornalista, formada pela UFMG e Engenheira Civil. Trabalhou doze anos em TV como repórter e apresentadora na Globo e Band Minas. Foi Editora da Revista Encontro e Encontro Gastrô. Escritora, cineasta e cronista premiada.

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