"Lira da Inconfidência", romance da escritora Blima Bracher é analisado pelo jornalista, acadêmico e Prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo - Blima Bracher
Blima Bracher

“Lira da Inconfidência”, romance da escritora Blima Bracher é analisado pelo jornalista, acadêmico e Prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo

A confidente dos inconfidentes
Angelo Oswaldo

Blima Bracher cresceu na Ladeira do Carmo, a poucos metros da Ópera de João de Sousa Lisboa e da Capela carmelitana, de cuja Ordem dos Terceiros foi prior o poderoso João Rodrigues de Macedo, construtor da Casa dos Contos e senhor dos contratos e dízimos de Vila Rica. O Aleijadinho refez a fachada riscada por seu pai e entalhou o voo dos anjos. Tiradentes foi aceito no venerável sodalício, a chamado do governador Rodrigo de Menezes.
No topo da subida em direção ao teatro, a menina avistava a torre do relógio da Casa de Câmara e Cadeia, com a estátua da Justiça a estender a espada e a balança por sobre os olhares intimidados da grande praça.
Da janela lateral de sua casa, via a Casa dos Contos, a Capela de São José e São Francisco de Paula em ascensão nas verdes encostas por entre o baile das brumas. A Matriz do Pilar, pousada no fundo de Ouro Preto, fazia soar o sino mais impressionante, em contraponto às badaladas do sino Elias do Carmo. E Blima sempre esteve ali, a sentir as pulsações da história.
Como não trazer toda a saga de Vila Rica de Ouro Preto no coração e na memória? Jornalista e escritora, ela fez uma imersão no tempo de sua cidade e vivenciou a trama de episódios em que se engendrou a conjura de 1789. Confidente dos inconfidentes, recompõe as cenas em que os conspiradores imaginaram a independência do Brasil, no sonho louco da liberdade. E vem nos contar, a nós, seus leitores, o que de fato terá acontecido, tudo por ela testemunhado no curso da viagem até ao século do ouro.
Os investigadores ciosos da veracidade documental poderão constatar que a autora percorreu alentada historiografia, a fim de que ninguém diga que ela está mentindo. O leitor atento ficará seguro de que em nada se pode contestar os relatos urdidos pela escrita ágil e sedutora de Blima, ao nos trazer tudo o que ouviu ao praticamente homiziar-se nos desvãos dos ambientes em que os protagonistas da Inconfidência Mineira viveram os instantes cruciais do audacioso movimento.
Joaquim José, o animoso Alferes, o Corta-Vento, o engenhoso dentista e minerador ávido de riqueza, o agricultor e o amante arrebatado, dele Blima escutou mais do que o cabeça desbragadamente disse por toda parte, e ainda os colóquios íntimos com as namoradas ou secretíssimos, com os cúmplices da revolução.
Aqui está Blima Bracher conjurada das Minas Gerais. Não sendo inconfidente, por não ser réu do tenebroso processo movido pela coroa portuguesa, a romancista arrasta-nos, leitores, para dentro da grande confidência dos atores e atrizes da história. Com ela, tornamo-nos também conjurados, compartilhando o prazer de, em cada trecho da narrativa desfiada num rosário de casos, participar do sonho libertário e do desejo de uma pátria que ainda iremos alcançar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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