Crônica, por Blima Bracher: Teus olhos sonsos - Blima Bracher
Blima Bracher

Crônica, por Blima Bracher: Teus olhos sonsos

Dois olhos castanhos, quase negros, mas desafiadores, como o cinto atado de um toureiro. Quando me olhavas no fundo, sabias que eu não me atreveria a mentir, escamotear ou esconder-me. Então, me desnudou, tantas vezes, sem despir-me, deixando exposto, na arena, o fato de eu trair-te e de me desculpar-me depois. Chegavas a a me dizer: ” Perdoo-te , por me traires”. E eu te traia. Com a vida, com festas, com músicas, com repúblicas. Não me atreveria a macular nosso amor, mas em tudo via mais graça que em ti. Apenas na hora do amor, me tinhas pura, por inteiro. Pisciano, lento, frágil e desnorteado. Procurava-me , sabendo que eu te daria meu entuziasmo, minha vida esfuziante, desenfreada, infantil, frenética, como lhe faltava o frisson na alma. Fomos grandes namorados, amores. Sim, fomos amores como talvez nunca mais seria. Porque é covardia o amor competir com a paixão. Essa chega de botas sujas, arrebentando a porta, ariana. Nunca fui infiel, apesar de ter sido desonesta, desobediente. Fui malandra. Pois era disto que te alimentavas em mim. De meu andar, desenfreado. EE, quando me viu inerte, presa nas garras da paixão, o amor, até o amor, se encolheu e foi embora, pra sempre maculado, embora a flecha da paixão não possa sequer pensar em atingir-te, oh meu amor puro e vivente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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